Cachaça do Rio de Janeiro investe em terroir para vender na Europa

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A fazenda Palmas, em Vassouras (RJ), produz cachaça premium na região da Mata Atlântica

A produção da cachaça Pindorama, na fazenda Palmas, localizada no município de Vassouras, a 130 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, foi de 42 mil litros no ano passado. A meta é de 45 mil a 50 mil litros neste ano, mas o projeto para 2028 são 75 mil litros, o equivalente a 100 mil garrafas e estimativa de receita anual da ordem de R$ 6 milhões.

Para expandir o negócio, o alambique está começando neste início de 2023 a enviar a cachaça em barris de 250 litros a 500 litros para ser engarrafada na Holanda e, a partir daí, distribuída para a Europa via Inglaterra. Hoje, a cachaça é exportada em garrafas (750 mililitros), a maior parte para Portugal.

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“Não diria que somos uma inovação nesse mundo da cachaça, mas sabemos que somos uma exceção”, afirma Rafael Daló, 41 anos, publicitário e artista plástico que deixou a profissão e hoje é administrador comercial da Pindorama. Exceção, para ele, é produzir cachaça autoral, em terroir, para consumidores que buscam experiências.

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Rafael Daló diz que movimento de cachaças de qualidade tem espaço para avançar

A decisão de Daló e administradores da marca faz sentido porque a cachaça tem um mercado crescente no mundo. O que a Pindorama faz hoje é construir nome para estar entre os maiores. Em 2022, o Brasil exportou 7,4 milhões de litros da bebida por US$ 20 milhões, recorde histórico segundo dados do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). A União Europeia respondeu por metade desse valor: foram exatos US$ 10 milhões. Para o Brasil, o bloco tem sido um cliente fiel na última década. No ano passado, dos oito países clientes, os maiores foram a Alemanha que respondeu por US$ 2,4 milhões, mais Portugal com US$ 1,8 milhão, a França com US$ 1,6 milhão e a Espanha com US$ 1 milhão.

Desde que o projeto de cachaça Pindorama começou, em 2017, já foram investidos R$ 3,5 milhões somente na área de plantio e em reflorestamento. A propriedade tem 170 hectares, dos quais seis hectares são para o cultivo da cana-de-açúcar. O restante é destinado a um projeto de reflorestamento da Mata Atlântica, bioma em que fazenda está localizada, e a produção de café cultivado na sombra das árvores. Desde o início já foram plantados 6 mil pés de uma variedade selvagem encontrada na própria fazenda que um dia já foi cafeeira, mais duas variedades encontradas no Espírito Santo.

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Casa histórica da fazenda onde foi encontrada a caldeira centenária

A história da cachaça Pindorama junta as vontades de quatro personagens. Daló é genro de Luiza Almeida Braga (as duas filhas, Maria e Luiza, também trabalham no negócio). O alambique é fruto da descoberta da função de uma estrutura centenária encontrada na propriedade que foi comprada para lazer em 2012. A pesquisa mostrou o tesouro que tinham nas mãos: uma caldeira de alambique da época em que Vassouras, no auge do Império, era uma cidade mais importante que a capital do país, o Rio de Janeiro.

“As peças de teatro e óperas eram apresentadas primeiro em Vassouras, para pequenos grupos, dada a importância e poder da região”, diz Daló. Ele lembra também que a fazenda original deste alambique tinha 6 mil hectares de terras, um mundaréu para a época dos senhores de engenho. O que é a Pindorama, hoje, era uma casa secundária dos donos e não a sede principal.

A produção da cachaça tem sido uma busca por identidade local, com a construção de um terroir, termo francês que não tem uma tradução fiel para o português. Mas pode ser entendido como um conceito, muito utilizado no mundo do vinho, que leva em consideração um conjunto de fatores de um produto, como topografia, geologia, pedologia (estudo do solo, sua forma, origem, classificação e propriedade), clima e microclima, intervenção humana, cultura, história e tradição do local. O terroir busca pelo DNA de uma bebida.

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Cachaça engarrafada e pronta para o comércio

O alambique original Pindorama foi o terceiro comercial do país. Quem assumiu o negócio, em 1865, foram os enteados do dono, que estabeleceram um sistema de cooperativa 20 anos antes da abolição dos escravos no país. A caldeira encontrada é datada de 1906, que Daló conta, foi a última tentativa antes do negócio ser abandonado em definitivo, até o dias atuais.

A revitalização nas mãos da família Braga começou pouco depois que ela foi adquirida. Além da área de cana, que ainda tem potencial para aumento da produtividade por hectare, os 100 hectares de Mata Atlântica e com nacos de floresta entraram em processo de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural). Esse tipo de área é uma unidade de conservação de domínio privado, boa parte de agricultores, gravada com perpetuidade na matrícula do imóvel com o objetivo de conservar a diversidade biológica.

Para chegar à cachaça como produto comercial, Daló diz que contou com ajudas preciosas, como a de Katia Alves do Espírito Santo, da Cachaça da Quinta, no município serrano de Carmo, que neste mês assumiu a presidência da Apacerj – Cachaças do Rio, entidade criada em 1998 e que reúne os produtores do estado. Katia é a primeira mulher a assumir o cargo. “Ela é a nossa fada madrinha. A Katia é espelho da Quinta, considerada entre as melhores cachaças brancas do Brasil”, diz Daló. Hoje, o trabalho de elaboração das cachaças da Pindorama é feito pelo engenheiro de alimentos, Bruno Zille. “Temos um phd em cachaça”, afirma Rafael, que ficou no Brasil entre 2014 e 2017, até que o projeto de transformar a área de lazer em negócio saísse do papel.

Fonte: Forbes Brasil

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